terça-feira, 29 de dezembro de 2009

VAMOS AOS FADOS..

Nas vozes de Ana Moura e Patxi Andion
Com as palavras de Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"
e música de Patxi Andion

Vaga, No Azul Amplo Solta

Vaga, no azul amplo solta,
Vai uma nuvem errando.
O meu passado não volta.
Não é o que estou chorando.

O que choro é diferente.
Entra mais na alma da alma.
Mas como, no céu sem gente,
A nuvem flutua calma.

E isto lembra uma tristeza
E a lembrança é que entristece,
Dou à saudade a riqueza
De emoção que a hora tece.

Mas, em verdade, o que chora
Na minha amarga ansiedade
Mais alto que a nuvem mora,
Está para além da saudade.

Não sei o que é nem consinto
À alma que o saiba bem.
Visto da dor com que minto
Dor que a minha alma tem.


Para ouvir basta clicar em baixo...

www.youtube.com/watch?v=GD1i14HKEdM

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

3 FILMES EM ANTEESTREIA… (II)

CINZAS E SANGUE, de Fanny Ardant.
E que história é esta que conta em "Cinzas e Sangue?
F.A.: "É uma tragédia, ao estilo grego, em que duas famílias rivais se encontram depois de anos de separação. Ao mesmo tempo tem uma boa dose de sentido contemporâneo, de actualidade. Os emigrantes que deixam para trás parte do seu sangue, neste caso particular falo da Roménia. E a sua tragédia é o regresso a casa, que quase todos procuram. Podem ser recebidos da melhor forma no país de acolhimento mas há algo que nunca desaparece, uma vontade de fugir, de regressar. É, por isso mesmo, uma escolha de vida algo trágica. Eurípides ou Sófocles teriam nestes nossos dias inspiração garantida
".
Cinzas e Sangue é um filme que impressiona pela paisagem, pela luminosidade, pela teatralidade dos movimentos das personagens e pelas relações familiares. Uma "tragédia ao estilo grego" que não é, parece-me, o estilo contemporâneo ocidental...

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

3 FILMES EM ANTESTREIA...(I)

UM PROFETA de Jacques Audiard (2009)
O jovem. A prisão. O sangue. O olhar. As grades. As paredes. O claro/escuro. A cela. Os gritos. Os palavrões. O sangue. Os rostos feridos. A sobrevivência. A lâmina. O assassínio. O sangue. A faca. A droga. Os gritos. Os socos. Os pátios. As celas. A boca. As palavras. A morte. A cama. O sonho. O sangue. A corrupção. Os homens. A prisão. O profeta…

domingo, 13 de dezembro de 2009

FILMES E REALIDADES FAMILIARES… (II)

A dinâmica da vida familiar pertence à Avó. Na cozinha, nas refeições, nas conversas com todos os membros da família, na relação com o Avô, na atitude perante o jovem (adulto) que foi salvo pelo filho que morreu... As mulheres falam, tratam da casa, lavam a loiça, tratam das crianças; os homens (entre os quais Ryo, o filho que, aos olhos do pai, nunca conseguiu substituir o mais velho que morreu ao salvar uma criança) ruminam ou estão distantes. Entre as crianças destaca-se o filho da viúva que casou com Ryo. Ele estabelece a ligação entre a mãe e Ryo e entre este e o Avô. O Avô quer que ele seja médico mas ele quer ser afinador de pianos como o pai.
Os diálogos pausados, o silêncio que acompanha as caminhadas que levam ao cemitério, a música da guitarra clássica que ocasionalmente irrompe, o quase aroma do milho e dos legumes, o sol e o calor daquele dia, as cores das flores e das borboletas, o comboio que separa as casas do mar, fazem com que este filme mostre a condição humana universal.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

FILMES E REALIDADES FAMILIARES… (I)


Uma família é um grupo mais ou menos alargado, mais ou menos complexo. De indivíduos, de pessoas diferentes e iguais. Cada um é (vai-se fazendo ou vai fazendo) uma personalidade própria. Como conciliar a vontade e o gosto de cada um com os outros? Como é que o que aprendemos na família de origem se vai transmitir ou vai influenciar a família que iremos criar?
“Tetro” é um filme sobre a família, ou melhor, sobre famílias. Em particular “aa famílias” argentina, italiana e ,portanto, a família americana. Mas é também um filme sobre personalidades individuais, em particular sobre certos filhos e certos pais. Individualmente e emocionalmente o poder, o prestígio e a rivalidade podem determinar as relações entre os membros da família. Quando isso acontece os conflitos são fortes e é natural que um filho “exija”, pelo menos simbolicamente, a morte do pai.
O preto e o branco de Vicent Gallo é muito interessante; a personagem do filho mais novo não me parece convincente. O “Festival da Patagónia” talvez não fosse necessário…

domingo, 6 de dezembro de 2009

FILMES E REALIDADES...

Suponhamos que um filme para ser bom tem que incluir um argumento convincente, sequências de filmagem articuladas, uma fotografia (cor ou preto e branco) adequada a cada cena, a música ou o som justo e uma interpretação que arrasta a realidade para o filme. Se um dos protagonistas do filme é um compositor, a música torna-se parte central da obra. Dizer que "o filme de K. resume o romance a uma questão de desejo carnal" é simplificar demasiado; e mesmo que fosse ainda haveria que explicar o que é isso de "desejo carnal". Os corpos (mas não só a sexualidade; também a gravidez da mulher e os corpos das crianças) são, sem dúvida, um dos elementos centrais do argumento, um outro elemento fundamental é a música e outro não menos importante ainda são os sentimentos dos protagonistas. E todos estes elementos são constitutivos da vida real. Mesmo que não tenha sido o real das personagens...
COMENTÁRIO DE A. NEVES SOBRE A FALTA DE PARTICIPAÇÃO NA VIDA POLÍTICA...

Manuel compreendo o teu desalento, mas não esqueças que vives em Portugal e que a falta de empenhamento em reuniões de análise não acontece só na política, mas em todos os ramos de actividade: analisar é descobrir o que não está a funcionar e o nosso vazio de ideias.Quem é que, estando bem instalado, quer questionar a realidade?
É verdade, no entanto, que a realidade evolue e não perdoa. A curto prazo,(não mais do que 6 meses), a situação política vai evoluir, vão surgir novas figuras, e o importante, mais uma vez, não será descobrir os erros e as suas causas, e as melhores estratégias futuras, mas a melhor forma de nos demarcarmos dos vencidos de ocasião e arranjar condições para nos juntarmos aos novos senhores do Poder.
Presta atenção: vai haver novas reuniões, mas, pelo que te conheço, tu não serás convidado.
António Neves.

sábado, 5 de dezembro de 2009

PARTICIPAÇÃO NA VIDA POLÍTICA...

Não é fácil intervir na política... Passada a época das campanhas eleitorais é como se estivesse à espera de passarem os 4 ou 5 anos do mandato dos órgãos eleitos para voltar a poder votar... Ora a participação na política não se pode esgotar no acto de votar se quisermos conhecer com alguma profundidade os meandros da política e não nos limitarmos a afirmações vagas. Mas não se julgue que é fácil intervir nas estruturas partidárias... As rotinas e os interesses são muitos e a tendência para quem lá está não querer que venha alguém mexer uma palha é muito forte!
Suponhamos que é convocada uma reunião de militantes do partido A e que a ordem de trabalhos é "Análise da situação política". Espera-se que sejam convocados muitos militantes, que haja alguém previsto para fazer uma primeira "análise da situação política", que sejam indicados documentos importantes para o debate e, finalmente, que haja bastantes militantes presentes. Se nenhuma destas condições se verifica o que concluir? Que alguém não está muito interessado em analisar o que quer que seja...

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

TENTATIVA DE COMENTÁRIO AO CONCERTO DE ONTEM NO S. LUIZ...

Nascemos humanos. E agora? J. Monge

A sala estava cheia. Talvez mais de quinhentas pessoas. Percebia-se que grande parte da assistência eram familiares ou amigos dos músicos. A Nancy Vieira, ao centro, de vestido comprido, vermelho, e os músicos, com cores mais escuras, em semi-círculo, ocuparam muito bem o espaço do palco em termos visuais. Os quadros de João Ribeiro projectados ao fundo recriavam, com as cores vivas do vulcão e do mar, a viagem do "Pássaro" pelas Ilhas. A primeira parte foi a apresentação do CD "Pássaro Cego" com letras de João Monge, músicas de Manuel Paulo e a voz de Nancy. Eis algumas palavras cantadas:
Diz o "Pássaro Cego":

"Tenho asas, não as vejo
nasci de uma falsa fé
de ser irmã do desejo
de saber como isto é".

Na "Ilha Babilónia" canta o "Pássaro":

"somos todos quase santos
somos todos animais
andamos nus pelos cantos
para ficarmos iguais".

E na "Ilha dos Outros":

"quem és tu? de onde vens?
tens duas asas como eu
tens corpo e alma e também tens
encontro marcado no céu".

Na "Ilha da Infância" o "Pássaro" canta com a voz das crianças:

"todos se chamam irmãos
filhos da mesma aguarela
nascem pardais das rosas
e eu sou a sua menina".

Na "Ilha da Saudade" canta o Pássaro":

"não vejo a hora de voltar
largar as malas no salão
trepar por ti sem te falar
espalhar as asas pelo chão".

E na "Ilha dos Amantes":

"ai, deixa ver
onde o teu peito desagua
onde é que nasce a luz da lua
eu vou sem nada pra te ver".

Senti, em determinados momentos, que essa viagem era demasiado embalada, vagarosa. A música era muito marcada pelo ritmo da percussão manual. Quando a voz da Nancy se aplicava ao ritmo mais marcado da "Ilha Babilónia" ganhava outro voo e enchia a sala e as palmas dos presentes.
Foi o que aconteceu mais claramente na segunda parte quando as músicas percorreram composições de outras origens. E ao voltarem, no "encore", ao "Pássaro Cego" então a voz da Nancy estava mais calma e sossegada e a plateia reconheceu aquele voos.
Um concerto muito bonito; um projecto muito exigente. Mas a voz de Nancy tem capacidades que esperam outras viagens.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

AO VIVO, NO SÃO LUIZ, 30 DE NOVEMBRO, 21 HORAS: APRESENTAÇÃO DO "PÁSSARO CEGO"...


Músicas: Manuel Paulo
Letras: João Monge
Voz: Nancy Vieira
Quadros: João Ribeiro

"Este disco é um arquipélago de canções do Manuel Paulo e João Monge, povoado pela voz serena da Nancy Vieira, uma voz insular que canta como se pairasse sobre um oceano salpicado por vulcões apaziguados pelo tempo" (Carlos Tê).
"É já o futuro anunciando-se como um presente feliz, um tempo de fronteiras abertas a uma língua comum. Que esse anúncio ocorra numa voz tão límpida parece-me um excelente sinal"(José Eduardo Agualusa).
http://www.manuelpaulonancyvieira.com/ www.myspace.com/manuelpaulonancyvieira
Músicos em presença:
Manuel Paulo (piano,voz)
Nancy Vieira (voz)
Ruben Santos (trombone, voz)
Sérgio Costa (guitarra, flauta)
António Quintino (contrabaixo)
João Correia (bateria)
inês Sousa (voz, percussão)
Preço Bilhetes: Entre 10,00 e 20,00 Euros
À venda:
Teatro São Luiz
www.teatrosaoluiz.pt
Ticketline
www.ticketline.pt
Lojas FNAC
www.fnac.pt
Nota: Se tentar adquirir bilhetes na Ticketline ou na FNAC e obtiver a informação de que não estão disponíveis, não deixe de contactar a bilheteira do São Luiz, no local (Rua António Maria Cardoso, 38, Lisboa), através do telefone (+351) 213 257 650 ou do e-mail
bilheteira@teatrosaoluiz.pt. Obrigada!

domingo, 29 de novembro de 2009

OS TEXTOS DA BÍBLIA E DE SARAMAGO... (Cont.)

A) GÉNESIS, 5, 3-8; 6, 1-5:

"Adão, tendo chegado à idade de centro e trinta anos, gerou um filho à sua imagem e semelhança, a quem chamou Set, e, depois de o ter gerado, vivei ainda oitocentos anos, e gerou filhos e filhas. Asssim, Adão viveu novecentos e trinta anos e depois morreu. Set, com a idade de cento e cinco anos, gerou Enós e, depois de tê-lo gerado, viveu ainda oitocentos e sete anos e gerou filhos e filhas. Assim, Set viveu novecendos e doze anos e depois morreu.(...). Quando os homens começaram a multiplicar-se sobre a terra e geraram filhas, viram os filhos de Deus que as filhas dos homens (1) eram formosas e tomaram-nas por esposas a seu gosto.(...). viu, portanto, o Senhor que a maldade do homem era grande sobre a terra, e que todos os instintos e propósitos do seu coração estavam continuamente voltados para o mal".
(1) Neste passo o comentador oficioso do texto bíblico acrescenta o seguinte: "os filhos de Deus" são os descendentes de Set, que se conservaram bons e religiosos; "as filhas dos homens" pertencem à linhagem de Caim, perversa e ímpia. Do Cruzamento das duas linhagens resultou (como costuma acontecer, pois a companhia dos maus arruina os bons) uma corrupção sempre maior. Sem comentários!

B) TEXTO DE SARAMAGO:

"Set, o filho terceiro da família, só virá ao mundo cento e trinta anos depois, não porque a gravidez materna precisasse de tanto tempo para rematar a fabricação de um novo descendente, mas porque as gónadas do pai e da mãe, os testículos e o útero respectivamente, haviam tardado mais de um século a amadurecer e a desenvolver suficiente potência generativa. Há que dizer aos apressados que o fiat foi uma vez e nunca mais, que um homem e uma mulher não são máquinas de encher chouriços, as hormonas são coisa muito complicada, não se produzem assim
do pé para a mão, não se encontram nas farmácias nem nos supermercados, há que dar tempo ao tempo. Antes de set tinham vindo ao mundo, com escassa diferença de tempo entre eles, primeiro Caim e depois Abel. O que não pode ser deixado sem imediata referência é o profundo aborrecimento que foram tantos anos sem vizinhos, sem distracções, sem uma criança gatinhando entre a cozinha e o salão, sem outras visitas que as do senhor, e mesmo essas
pouquíssimas e breves, espaçadas por longos períodos de ausência, dez, quinze, vinte, cinquenta anos, imaginamos que pouco haverá faltado para que os solitários ocupantes do paraíso terrestre se vissem a si mesmos como uns pobres órfãos abandonados na floresta do universo, ainda que não tivessem sido capazes de explicar o que fosse isso de órfãos e abandonos. É verdade que dia sim, dia não, e este não com altíssima frequência também sim, adão dizia a eva, Vamos para a cama, mas a rotina conjugal, agravada, no caso destes dois, pela nula variedade nas posturas por falta de experiência, já então se demonstrou tão destrutiva como uma invasão de carunchos a roer a trave da casa. Por fora, salvo alguns pozinhos que vão escorrendo aqui e ali de
minúsculos orifícios, o atentado mal se percebe, mas lá por dentro a procissão é outra, não tardará muito que venha por aí abaixo o que tão firme havia parecido. Em situações como esta, há quem defenda que o nascimento de um filho pode ter efeitos reanimadores, senão da libido, que é obra de químicas muito mais complexas que aprender a mudar uma fralda, ao menos dos sentimentos, o que, reconheça-se, já não é pequeno ganho. Quanto ao senhor e às suas esporádicas visitas, a primeira foi para ver se adão e eva haviam tido problemas com a instalação
doméstica, a segunda para saber se tinham beneficiado alguma coisa da experiência da vida
campestre e a terceira para avisar que tão cedo não esperava voltar, pois tinha de fazer a ronda pelos outros paraísos existentes no espaço celeste. De facto, só viria a aparecer muito mais tarde, em data de que não ficou registo, para expulsar o infeliz casal do jardim do éden pelo crime nefando de terem comido do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. Este episódio, que deu origem à primeira definição de um até aí ignorado pecado original, nunca ficou bem
explicado. Em primeiro lugar, mesmo a inteligência mais rudimentar não teria qualquer dificuldade em compreender que estar informado sempre será preferível a desconhecer, mormente em matérias tão delicadas como são estas do bem e do mal, nas quais qualquer um se arrisca, sem dar por isso, a uma condenação eterna num inferno que então ainda estava por inventar. Em segundo lugar, brada aos céus a imprevidência do senhor, que se realmente não
queria que lhe comessem do tal fruto, remédio fácil teria, bastaria não ter plantado a árvore, ou ir pô-la noutro sítio, ou rodeá-la por uma cerca de arame farpado. E, em terceiro lugar, não foi por terem desobedecido à ordem de deus que adão e eva descobriram que estavam nus. Nuzinhos, em pelota estreme, já eles andavam quando iam para a cama, e se o senhor nunca havia reparado em tão evidente falta de pudor, a culpa era da sua cegueira de progenitor, a tal, pelos vistos incurável, que nos impede de ver que os nossos filhos, no fim de contas, são tão bons ou tão maus como os demais".

sábado, 28 de novembro de 2009

REGRESSO COM LIVROS...

Este livro, a "Dança dos Demónios - Intolerância em Portugal", editado por Temas e Debates/Círculo de Laitores, apresentado há dias, constitui uma fonte importante para o conhecimento da sociedade portuguesa (e de todas as sociedades). Centra-se no estudo das atitudes, dos movimentos e das ideologias que se pretendem afirmar contra alguém; isso permite conhecer tanto o alvo do combate como o combatente. Por isso esta obra poderia chamar-se "Discursos de combate e de sobrevivência"; "discursos" que não nos podem fazer esquecer o princípio segundo o qual cada indivíduo está em constante relação com os outros e, portanto, está sempre no limiar da luta ou do encontro. A tolerância e a intolerância são pontos de um circuito de que cada pessoa e cada sociedade se aproxima mais ou menos; se distinguirmos entre tolerância passiva (a indiferença) e activa (conhecimento e comunicação com outras culturas) e, por outro lado, entre intolerância despótica (autoritarismo) e intolerância justificada (que tem de definir os limites da tolerância) compreenderemos rapidamente que qualquer posição se pode transformar no seu contrário. Sabemos há muito que "os outros são o nosso espelho"...


A "Dança dos Demónios" faz referência a dez temas principais: Anti-semitismo, Anti-Islamismo, Anticlericalismo, Antiprotestantismo, Antijesuitismo, Antimaçonismo, Antifeminismo, Antiliberalismo, Anticomunismo e Antiamericanismo.

domingo, 8 de novembro de 2009

Livros de hoje e de amanhã… nas palavras de Lídia Jorge…

Talvez um dia exista “uma nova Humanidade cujo texto fundador comece por No final era o verbo, e ninguém precise de reconhecer o decalque. Por que razão não podemos pensar assim? Mas eu não posso mentir – Não imagino alguém que eu ame envolvido neste cenário. Não encontro aconchego nesse mundo, por fraqueza de imaginação, ou simples falta de inteligência. Fiz o meu contrato sentimental com os livros que se parecem com as árvores, aqueles que são da sua matéria. Leio cada um desses livros à vez, e cada folha é lida uma após outra, todas essas árvores carregadas de palavras revestem-me as paredes da sala, uma delas começa assim, «Vem, Noite antiquíssima e idêntica, /Noite Rainha nascida destronada…», eu ouço uma voz sem tempo falar muito próximo, e tudo faz um sentido brutal.

(Contrato Sentimental, pág. 110)

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

AINDA A PROPÓSITO DE LÍDIA JORGE E A ESCOLA...
Escreve o seguinte:
“Uma boa escola nunca é um lugar de passagem. O lugar da instrução escolar é um lugar único e irrepetível. Não é um local de trabalho, nem é um local concebido para jogo e deleite, é um outro lugar onde trabalho, jogo e deleite se cruzam de modo a que todo o exercício seja suportável, e a realidade resulte da aplicação do exercício. Por isso uma boa escola é sempre um lugar de protecção. E a noção do cumprimento, na infância e na adolescência, transitam com naturalidade para os níveis pessoais de libertação. O que tem de permanecer lá, ao fundo da sala, são rostos estimáveis, confiáveis, aqueles que depois acompanham as pessoas para o resto da vida, quando elas já nem dos nomes dos professores se lembram, mas sabem que foram eles, aqueles, os instrumentos da sua autonomia”(Contrato Sentimental, Sextante Editora, Lisboa, 2009, pág. 50).

Digo eu - A complexidade de uma escola resulta da multiplicidade de funções que ela tem de desempenhar. Lugar de transmissão de conhecimentos, terá de reunir e actualizar as condições humanas e físicas indispensáveis à qualidade dos saberes transmitidos; lugar de convivência intensiva, terá de encontrar procedimentos de gestão de conflitos adequados e justos; lugar de desenvolvimento de crianças e jovens, terá de dispor de estratégias de resposta à diversidade da vida que permitam o crescimento, a adaptação e a criatividade de cada um de forma equilibrada; ponto de encontro de concepções muito diferentes do Mundo e da Vida, terá de encontrar os momentos e as formas de transformar essa diversidade em património e ideias novas, isto é, de fazer esquecer algum passado ou tornar o futuro já agora.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

A CASA DAS HISTÓRIAS DE PAULA REGO EM CASCAIS...

PAULA REGO COM ALGUNS DOS BONECOS DAS SUAS HISTÓRIAS...

UM TRABALHO DE PAULA REGO...

O QUE É UM BUROCRATA?

Para Kafka, referido por Lídia Jorge no Contrato Sentimental , Sextante Editora, pág. 53) "um burocrata é alguém que escreve um documento de dez mil palavras e chama-lhe sumário". Nas escolas públicas há tendência para burocracias quando faltam o bom senso e o sentido humano dos problemas e das soluções.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

"PÁSSARO CEGO"...



...DE MANUEL PAULO E NANCY VIEIRA...

domingo, 25 de outubro de 2009

O TEXTO BÍBLICO E O TEXTO DE SARAMAGO:

Génesis, cap. 4:

"Abel foi pastor e Caim foi agricultor. Ao fim de um certo tempo, Caim apresentou ao Senhor uma oferta de produtos da terra e Abel ofereceu as primeiras e melhores crias do seu gado. Ora, Deus ficou contente com Abel e com a sua oferta; mas não ficou satisfeito com Caim nem com a sua oferta. Por isso, Caim ficou muito irritado e de má cara. Deus disse-lhe então: "Por que é que te irritaste assim e ficaste com tão má cara? Se te comportares bem, podes andar de cabeça erguida, mas se te comportares mal, tens o pecado a espreitar à porta, procurando vencer-te. E contudo tu podes dominá-lo.
Certo dia, depois de Caim ter falado com Abel, seu irmão, saíram para o campo. Encontravam-se lá, quando Caim atacou o irmão e o matou.
O Senhor perguntou a Caim: "Onde está o teu irmão?" "Não sei. Será que eu sou o guarda do meu irmão?", respondeu ele.
E o Senhor disse-lhe: "Que fizeste? A voz do sangue de teu irmão clama por mim desde o solo. Agora, pois, maldito sejas longe do solo que abriu a sua boca para beber de tua mão o sangue de teu irmão! Quando o cultivares, negar-te-á as suas riquezas; andarás pela terra errante e fugitivo!".

O novo livro de José Saramago, Caim, começa assim:

«Quando o senhor, também conhecido como deus, se apercebeu de que a adão e eva, perfeitos em tudo o que apresentavam à vista, não lhes saía uma palavra da boca nem emitiam ao menos um simples som primário que fosse, teve de ficar irritado consigo mesmo, uma vez que não havia mais ninguém no jardim do éden a quem pudesse responsabilizar pela gravíssima falta, quando os outros animais, produtos, todos eles, tal como os dois humanos, do faça-se divino, uns por meio de rugidos e mugidos, outros por roncos, chilreios, assobios e cacarejos, desfrutavam já de voz própria. Num acesso de ira, surpreendente em quem tudo poderia ter solucionado com outro rápido fiat, correu para o casal e, um após outro, sem contemplações, sem meias-medidas, enfiou-lhes a língua pela garganta abaixo. Dos escritos em que, ao longo dos tempos, vieram sendo consignados um pouco ao acaso os acontecimentos destas remotas épocas, quer de possível certificação canónica futura ou fruto de imaginações apócrifas e irremediavelmente heréticas, não se aclara a dúvida sobre que língua terá sido aquela, se o músculo flexível e húmido que se mexe e remexe na cavidade bucal e às vezes fora dela, ou a fala, também chamada idioma, de que o senhor lamentavelmente se havia esquecido e que ignoramos qual fosse, uma vez que dela não ficou o menor vestígio, nem ao menos um coração gravado na casca de uma árvore com uma legenda sentimental, qualquer coisa no género amo-te, eva. Como uma coisa, em princípio, não deveria ir sem a outra, é provável que um outro objectivo do violento empurrão dado pelo senhor às mudas línguas dos seus rebentos fosse pô-las em contacto com os mais profundos interiores do ser corporal, as chamadas incomodidades do ser, para que, no porvir, já com algum conhecimento de causa, pudessem falar da sua escura e labiríntica confusão a cuja janela, a boca, já começavam elas a assomar. Tudo pode ser. Evidentemente, por um escrúpulo de bom artífice que só lhe ficava bem, além de compensar com a devida humildade a anterior negligência, o senhor quis comprovar que o seu erro havia sido corrigido, e assim perguntou a adão, Tu, como te chamas, e o homem respondeu, Sou adão, teu primogénito, senhor. Depois, o criador virou-se para a mulher, E tu, como te chamas tu, Sou eva, senhor, a primeira dama, respondeu ela desnecessariamente, uma vez que não havia outra. Deu-se o senhor por satisfeito, despediu-se com um paternal Até logo, e foi à sua vida. Então, pela primeira vez, adão disse para eva, Vamos para a cama.»


SUGESTÃO: continuar a ler a Bíblia e o livro de Saramago...

sábado, 17 de outubro de 2009

NATUREZAS VIVAS...
Pelos testemunhos a que se refere, pelo estilo que os autores, Sara Adamopoulos e José Vasconcelos, utilizam nos textos principais, pelas intervenções breves e precisas de António Nóvoa e Mariano Gago e até pela capa, a obra Liceu Camões - 100 anos, 100 testemunhos, editada pela Quimera e lançada ontem, mostra como as escolas podem fazer parte da natureza viva...


Transcrevo um excerto não do Liceu de Camões mas de uma obra inédita: A CASA INTERIOR:

O DIA DA FESTA

Chegou finalmente o dia marcado. Deveria vir muita gente mas algumas pessoas não tinham confirmado. Relativamente a alguns dos convidados especiais havia ainda dúvidas sobre a sua presença. Por outro lado não se sabia exactamente quantos ficariam para o lanche que o orçamento obrigava a ser parco. Estas incertezas e limitações criavam, naturalmente, no dono da casa uma preocupação, uma inquietação típicas das circunstâncias. “Vai tudo correr bem!”, dizia a filha mais nova. O pai gostava da intenção expressa e não tinha coragem de contrapor o que quer que fosse; afinal, apesar de, no início, ter colocado algumas reservas à ideia da mãe, tinha concordado em fazer a festa.
Oficialmente era às cinco horas o encontro mas até lá havia sempre qualquer coisa por fazer. Há uns anos alguém se tinha esquecido de comprar o vinho verde e a água das pedras; falha colmatada pelo filho quando já havia convidados na sala. Não era agora o caso. As flores estavam nas jarras previstas, os livros novos foram colocados na mesa adequada, a entrada principal tinha sido rigorosamente limpa e o jardim estava desimpedido para a chegada dos poucos carros que lá cabiam.
Alguns convidados não compareciam há anos. Uns porque estavam longe, outros porque tinham tarefas inadiáveis no trabalho e outros porque estavam realmente doentes. Agora era preciso pensar em cada um deles para retomar conversas antigas ou saber colocar as perguntas.
Tais conversas começaram pouco tempo depois da hora marcada. Eu reparava que o dono da casa se esforçava por pôr as pessoas à vontade. Num primeiro momento as palavras eram forçadas mas pouco a pouco vinham à memória episódios divertidos que descontraíam o ambiente e facilitavam a comunicação. As intervenções lúdicas, literárias e musicais que alguns dos presentes tinham gosto em fazer constituíam uma razão acrescida para a festa. O lanche acabava por alimentar corpos e almas.
Ao cair da tarde, o dono da casa reconhecia que mal tinha falado com cada um dos convidados mas podia, finalmente, descansar.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

PARA CONCLUIR AS ELEIÇÕES...

Terminou a longa época eleitoral. Não é exagerado afirmar que o PS-Sócrates não sai muito derrotado. Mas a perda da maioria absoluta nas legislativas mostra que estava a governar de forma arrogante. O resultado das autárquicas mostra que o poder local tem uma lógica própria: ao papel dos partidos sobrepõem-se (pelo menos podem sobrepôr-se) os interesses próximos. Em qualquer dos casos conclui-se que o Partido Socialista (não propriamente de Sócrates) é a escolha maioritária dos eleitores. Sabia-se que o governo que agora termina funções tinha tomado decisões favoráveis a uma boa parte de pessoas idosas e carenciadas, tinha alterado substancialmente as condições de trabalho dos agentes escolares, dos juízes e dos médicos. Numa palavra: foi um governo reformador mas polémico! O facto de agora Sócrates se dispôr ao "diálogo" pode não passar de retórica mas as alterações podem começar por mudar de palavras! Vamos ver o que nos espera a política nos próximos dias...

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

COMENTÁRIO SIMPÁTICO MAS TOTALMENTE INESPERADO...

Artur Fernandes disse...
Olá! Obrigado pela simpática referência!Visite-nos em www.dancasocultas.com

6 de Outubro de 2009 18:25

NOTA: Agradeço o brevíssimo comentário do "Maestro" e com certeza que vos farei mais visitas virtuais e, sobretudo, reais! Obrigado pela sugestão e parabéns pelo concerto no S. Luiz!
M.B.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

CARUMA disse...
De acordo. Os cidadãos devem participar, mas espero que o façam construtivamente. Bem sei que as queimadas têm o objectivo de regenerar o pasto, mas se feitas fora de tempo acabam por desertificar o terreno.
4 de Outubro de 2009 22:48

RESPOSTA DE M.B.:
Caro "carumeiro":
Tenho uma sensação de incómodo que não sei explicar completamente quando leio ou oiço frequentemente expressões do tipo "o cidadão devia participar...", "devia votar...", "devia intervir", etc. Penso que o incómodo deriva da utilização sistemática da palavra "dever". Provavelmente por influência de Kant ou talvez dos seus comentadores, tenho dificuldade em considerar positiva a noção de "dever". O dever tem uma carga de obrigatoriedade que para mim não é fácil de compatibilizar com a vida , isto é, com a alegria. Se digo "o cidadão deve fazer o que acha melhor, o que lhe dá mais alegria" já estou a utilizar a palavra noutro sentido e, portanto já não tem conotação negativa porque remete para a noção de prazer e para a vontade individual. Eu não digo "o cidadão devia participar na vida política" ; digo apenas: "participar na vida política para lá das votações dá-nos ocasião de sentir uma força maior para as nossas convicções e portanto permite encontrar alternativas aos políticos que vamos tendo". E, para utilizar a metáfora da "queimada", digo: "se a participação do cidadão não tem influência no meio é pouco provável que lhe traga alegria e aos outros algum benifício; por outras palavras, toda a participação comporta riscos...".
Saúde e bom trabalho.
M.B.

sábado, 3 de outubro de 2009

DESCOBRIR DANÇAS OCULTAS ...


Bela surpresa esta! Como 4 concertinas (nas mãos de 4 instrumentistas) nos proporcionam uma música ao mesmo tempo bela e espiritual! A atitude dos músicos (na foto de cima para baixo e da esquerda para a direita: Filipe Cal, Filipe Ricardo, Artur Fernandes e Francisco Miguel) é fundamental e qualifico-os assim: Maestro, Barítono, Apolo e Místico. Fica a vosso cargo a identificação de cada um! Para já podem clicar aqui e ouvir um pouco da música do último CD, Tarab...

www.youtube.com/watch?v=DdVbvCBSLsI

E aqui para verem os músicos em acção há uns tempos...

youtube.com

Bom domingo!

A PROPÓSITO DAS ELEIÇÕES AUTÁRQUICAS...

Acabo de ouvir a notícia de que António Costa informou há pouco os trabalhadores da Câmara Municipal de Lisboa de que iriam ser aumentados argumentando depois que isso tinha sido decidido há muito tempo...
Se foi verdade, António Costa está rodeado de maus conselheiros. É um erro básico!
Começo a pensar que António Costa está apreensivo e isso é um sinal de que ele não vai ganhar as eleições...
M.B.
DIMI disse...
Manuel gosto muito, mesmo muito da Lídia Jorge, quer como escritora, quer como pessoa. Foi minha professora de Português em 1973/1974, na Beira, em Moçambique e foi daquelas professoras que me marcou para a vida (sempre a importância dos professores e não sei como há quem não reconheça tal...). Li todos os livros dela à excepção deste último. Os meus preferidos são "O Cais das Merendas", que foi o seu segundo livro, uma obra prima ignorada, "O Vento Assobiando nas Gruas" e um pequeno conto maravilhoso "A Instrumentalina". Quando puderes lê e depois trocamos umas ideias sobre o assunto, como diria o Mário de Carvalho.Dimi
1 de Outubro de 2009 22:38

RESPOSTA DE MB:
Obrigado, Dimi, pelo teu depoimento sobre a Lídia Jorge. Vou tentar ler mais alguma coisa dela. Logo que as tarefas escolares abrandarem!
Saúde para vocês!
M.B.
CARUMA comentou...
«É preciso intervir já!» Pois é, a democracia participativa! Mas cuidado, é preciso dar espaço ao novo governo. Nada nos garante que Socrates não tenha aprendido com os erros. Quem sabe, talvez o PS retire o socialismo da gaveta, em vez de se atirar para os braços de franjas políticas que têm como 1º objectivo asxifiá-lo. E também devemos ter presente que o cavaquismo continua à espreita.
28 de Setembro de 2009 8:11

RESPOSTA DE MB:
Quando se diz "Intervir já!" significa apenas que os cidadãos não devem "esperar" que um dirigente ou um partido faça isto ou aquilo. Significa que está na hora de aumentar a participação na vida dos partidos e dos órgãos que detêm efectivamente o poder... Há muitas alternativas aos dirigentes partidários! Mas é preciso descobri-las!
Bom fim de semana!

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

CONTADOS OS VOTOS...

Temos então na próxima Assembleia:

PS - 96 deputados (121 em 2005);
PSD - 78 deputados (75 em 2005);
CDS-PP - 21 deputados (12 em 2005)
CDU - 15 deputados (14 em 2005)
BE - 16 deputados (8 deputados).

Portanto:
1) O PS perdeu a maioria absoluta mas manteve uma clara maioria relativa;
2) O PSD perdeu em todos os aspectos;
3) O CDS-PP aumentou muito para além das expectativas;
4) O BE duplicou o número de deputados mas as suas posições não vão ser decisivas na Assembleia porque PS+BE não dá maioria absoluta;
5) A CDU aumentou ligeiramente o número de votos e o número de deputados mas é a última força política.

Nestas condições o PS-Sócrates vai continuar a formar governo sózinho mas vai ser obrigado a negociar com partidos e, portanto, a sua atitude de "quero, posso e mando" acabou. Estão reunidas condições para ser mais influente a intervenção de cada partido e de cada cidadão. Não podemos ficar à espera das próximas eleições; é preciso intervir já!

domingo, 27 de setembro de 2009

ELOGIO DO CONTRATO SENTIMENTAL DE LÍDIA JORGE...



Não me recordo de ter lido nenhum livro de Lídia Jorge. Nem sequer uma crónica ou um texto mais curto. Tinha-a ouvido falar há muito tempo num programa qualquer de televisão. Mas na apresentação do Contrato Sentimental lançado há duas semanas gostei de a ouvir falar. E quando li as duas primeiras linhas que transcrevo decidi ler um pouco mais e finalmente comprar o livro para ler mais e à vontade:

Muitos são aqueles que apresentam razões fortes para duvidar, mas eu tenho a certeza que Portugal existe”.

Mais adiante diz a autora:


“Vou procurar traduzir para português o que o poeta José Emílio Pacheco pensou em castelhano do México.

Não amo a minha pátria.
O seu fulgor abstracto é inacessível.
Porém (ainda que soe mal) daria a minha vida
Por dez dos seus lugares, certas pessoas,
Portos, bosques de pinheiros, fortalezas,
Uma cidade desfeita, cinzenta, monstruosa,
Várias figuras da sua história, montanhas
E três ou quatro rios.

Eu também.”


E eu também.

sábado, 26 de setembro de 2009

Sara disse...
Tinha deixado um comentário lá em baixo mas pertencia aqui e que era mais ou menos "Parabéns a todos e Obrigada Camila." Sugestões de temas para o próximo?

BEijinhos
Sara
26 de Setembro de 2009 20:41
FIM DOS EXERCÍCIOS SOBRE AS ELEIÇÕES LEGISLATIVAS 2009...

Pois é. Hoje é dia de reflexão para o voto de amanhã. Tal como tenho dito, a política não se resume ao acto de votar porque não se trata de uma competição desportiva; se assim fosse, amanhã seria um dia complicado para os "derrotados". A menos que saiam todos vencedores...como é costume...
A questão é já outra: o que é que os cidadãos podem fazer sejam quais forem os resultados? Participarem activamente em vários domínios da vida social, cultural e política e essa intervenção depende, sobretudo, da imaginação...
Votem bem!

domingo, 20 de setembro de 2009

Camila Reis disse...
Já li alguns dos textos que constam do livro Sei quem sabe (editado pela Fundação Odemira em Setembro de 2009) e tenho gostado de todos. Ter num livro compiladas respostas, concisas e esclarecedoras, aos mais variados temas ajuda-nos a chegar, não à condição de saber tudo, mas à de saber de tudo um pouco.Gostei muito da forma como se fala da Filosofia, das referências a autores e obras, etc. Gostei particularmente da pergunta "Qual é o interesse prático da filosofia na vida das pessoas?". A disciplina parece ser vista de forma tão abstracta que a possibilidade de esta ter uma componente prática é, para quem não sabe, surpreendente.Parabéns a todos e parabéns à Sara. Todos temos sede e não sabemos.
20 de Setembro de 2009 13:31

NOTA: Agradeço Camila o teu comentário e apresento (creio que pela primeira vez em termos absolutos porque não a encontrei na Internet), a capa do livro a que te referes.
M.B.


ELEIÇÕES LEGISLATIVAS 2009 - PONTO DA SITUAÇÃO COM ALGUMAS ALTERAÇÕES...

Não vi nenhum debate com os líderes políticos na televisão. Não tenho visto as entrevistas humorísticas dos políticos com o Gato Fedorento. Mas fui a um debate com representantes dos partidos BE, PCP, PS, MEP, PSD e CDS (pela ordem na mesa da esquerda para a direita) que teve lugar na Faculdade de Direito na semana passada organizado pelo Forum Liberdade de Educação. Na comunicação social dei conta dos resultados de algumas sondagens recentes.
Partindo das impressões de pessoas que têm acompanhado estas iniciativas e pelo que tenho seguido gostaria de colocar as seguintes hipóteses para o dia 27 de Setembro:

H1 – Nenhum partido terá maioria absoluta de votos;

H2 – É muito provável que o PS tenha um resultado (ligeiramente) superior ao do PSD;

H3 – O BE terá um aumento significativo em relação às últimas legislativas e, talvez, mesmo
em relação às europeias;

H4 – o PCP e o CDS têm resultados muito próximos.

Partindo do princípio que H1 é indiscutível e que H4 se verifica: se se verificarem H2 e H3 tudo vai depender do que for ” ligeiramente superior” e do “aumento significativo”.

Verificando-se H2:
Hipótese H2a: a diferença entre o PS e o PSD é igual ou superior a 3%; o PS-Sócrates dirá que “obteve uma vitória clara e contra muitas expectativas e que está pronto para formar governo”;
Hipótese H2b: a diferença é inferior a esse valor; o PS-Sócrates dirá apenas que “obteve a vitória e que está pronto para assumir as suas responsabilidades”.

Verificando-se H3:
Hipótese H3a: O BE obtém uma votação superior às europeias isto é, um resultado da ordem dos 10%; o BE dirá que a “governação não pode continuar a ser feita como até aqui”;
Hipótese H3b: o BE obtém um resultado igual ou superior a 12%; neste caso dirá, certamente, que “a governação não pode ser feita sem tomar em conta as suas propostas”.

Portanto pode acontecer:

H5: H2a e H3b verificam-se e o PS + BE tem a maioria absoluta no Parlamento. Que há a fazer? UM GOVERNO DE COLIGAÇÃO!
H6: H2a e H3b (ou H2a e H3a; ou H2b e H3) verificam-se mas o PS + BE não têm maioria absoluta no Parlamento. Que há a fazer? Não se poderá fazer nada de significativo. Neste caso nenhuma soma com dois elementos dá maioria absoluta (excepto PS+PSD mas este cenário não viabiliza um governo) e uma soma com três elementos é muito pouco provável. Portanto teremos que esperar.

Ora, se se verificar H5 temos uma alteração significativa de governo. Qualquer outro conjunto de resultados constitui tempo de espera.

Para se verificar H5 tem que se verificar H2a: o que o PS tem feito e o que o PSD tem feito e dito tornam H2a altamente provável.
Para se verificar H5 tem que verificar H3b: o que o BE tem dito até ao momento não é suficiente para a ocorrência de H3b ter probabilidade igual ou superior a 40%.

CONCLUSÃO FINAL: uma vez que as eleições também significam uma indicação da parte dos eleitores do sentido em que os partidos devem caminhar, pode bem acontecer a hipótese H5 mesmo que tanto o PS-Sócrates como o BE não tenham consciência disso! Portanto, quem pensa assim deverá votar BE, nestas eleições! Creio que vou mudar o sentido do meu voto expresso em 29 de Agosto de 2009!

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

MARIA FERNANDA FERREIRA DE CARVALHO (1953-2009), PROFESSORA DE MATEMÁTICA

Na azáfama da abertura de mais um ano lectivo, a notícia da morte de uma colega de trabalho obriga-nos a recolher e a pensar sobre o que é importante na vida. O sacerdote recordou-nos isso: a atenção aos outros, o sentido humano das coisas e das relações, a partilha do tempo e dos lugares, a tranquilidade com que se enfrentam os problemas e a sua resolução. Não sei se a referência a Cristo é necessária para fundamentar a solenidade do momento; mas foi também aquele sacerdote que disse mais ou menos o seguinte: “A morte é um dos momentos em que reconhecemos de uma maneira muito forte o mistério da condição humana”. No silêncio possível das circunstâncias, estas palavras tem um eco particularmente justo.
A professora Fernanda Carvalho caminhava, pelo menos desde 2003, muito lentamente. O cansaço e esforço com que subia as escadas não a impediam de vir diariamente às aulas. Lembro-me de lhe perguntar algumas vezes por que razão estava tão pálida e de ela responder que era apenas cansaço.
O beijo à despedida de quem esteve junto dela durante vários anos também faz parte do mistério da vida.

sábado, 12 de setembro de 2009

NÃO HÁ DUAS...SEM TRÊS INICIATIVAS CULTURAIS...

A originalidade e o interesse que pode ter para os alunos (e não só...) obrigam-me a publicar esta notícia.
INAUGURAÇÃO DA CASA-POEMA

A 16 de Setembro, a Casa Fernando Pessoa transforma-se num poema, por dentro e por fora. Fachada exterior e paredes albergarão inúmeras versões de uma só ode de Ricardo Reis (Fernando Pessoa).
A inauguração da Casa-Poema será acompanhada, durante o dia, de animação de rua. Às 19h30, actores da Tenda – Palhaços do Mundo dirão poemas de Pessoa, das janelas da Casa Fernando Pessoa para a rua em frente. Pelas 21h30, na mesma rua, terá lugar um espectáculo musical pelo Flak Ensemble, e às 22h30 a peça de teatro «Todos os Casados do Mundo são Mal Casados», dramaturgia de Inês Pedrosa a partir de textos de Ovídio e Fernando Pessoa, encenada e interpretada por Diogo Dória.

INTERVALO... PARA OUTRA SUGESTÃO CULTURAL...

O blogue de Carlos Fiolhais com o endereço

http://dererummundi.blogspot.com/2009/08/novo-livro-de-divulgacao-da-ciencia-sei.html

tem em destaque a publicação de um pequeno livro com o título SEI QUEM SABE pela Fundação Odemira lançado no dia 8 de Setembro de 2009 na Biblioteca Municipal. Como tive a honra de ser convidado a participar no projecto não posso deixar de agradecer à organizadora, a escritora e professora, Sara Monteiro, à Câmara e à Fundação Odemira pelo incentivo e apoio a este tipo de iniciativas culturais e aos alunos que participaram com a colocação de perguntas e a ilustração simples mas sugestiva que introduz cada tema abordado. Voltarei brevemente a este livro. Obrigado a todos.

Para que conste registamos o momento... No uso da palavra está o Dr. Francisco Antunes, Presidente da Fundação Odemira, à minha esquerda a escultora Vera Gonçalves, ao seu lado esquerdo a escritora e coordenadora do projecto, Sara Monteiro, em seguida a Professora Doutora Maria Cabral, a Drª Susana Brito e ainda de pé, o Arquitecto Lutz Bruckelman.

INTERVALO...PARA UMA SUGESTÃO MUSICAL...

O jovem músico da foto vai participar no lançamento do CD da cantora e compositora, Joana Rios, nos próximos dias em vários pontos do país, nomeadamente, no Teatro S. Luís em Lisboa. Para começar a ouvir e a conhecer Joana Rios basta clicar em http://joanarios.com/joanarios.html . O contrabaixista tocará também em Janeiro na Casa da Música, o que não deixa de ser um acontecimento de assinalar...(seja lá em que sala for...).


Para saber mais sobre este músico consulte ao lado "António Quintino - Música".
Nota: A fotografia é de Mário Cruz (para ver outros trabalhos deste jovem mas já conceituado fotógrafo basta clicar ao lado).

domingo, 6 de setembro de 2009

EXERCÍCIO XIII - ESTUDO DO PROGRAMA DO CDS-PP RELATIVAMENTE À EDUCAÇÃO...

1. “Para o CDS é evidente o excesso de peso do Ministério da Educação, a acção asfixiante do Estado, a falta de uma cultura de responsabilidade e de exigência, a ausência de liberdade de escolha para as famílias e a exiguidade da autonomia”.
QUESTÃO: Isto não significa, basicamente, defesa da privatização total do ensino? Quais as vantagens desta privatização?
2. “Tudo com a liderança de um Director de Escola e de um conjunto de órgãos com estrutura simplificada, aberto à sociedade, valorizando o papel dos pais e co-responsabilizando a comunidade, e com competências bem definidas. O Director da Escola deve ser professor. Garante, após formação própria e especializada, a gestão profissional dos vários recursos existentes na escola. Por essa via as escolas serão dotadas não só de maior autonomia, como também de crescente responsabilização”.
QUESTÃO: Isto não é, basicamente, o que o PS tem feito e pretende continuar a fazer?
3. “Deve existir um sistema de avaliação das escolas que tenha como ponto central a vertente pedagógica. Defendemos um sistema geral de avaliação na Educação que abarque as políticas educativas, as escolas, os alunos, os manuais, os programas e os professores. A avaliação das escolas deve ser universalizada e tornar-se uma prática regular”.

QUESTÃO: Isto não é o que se tem feito e que todos os partidos defendem?

4. “Os alunos devem ser avaliados de uma forma sistemática, regular, e exigente”.

QUESTÃO: Pode haver afirmação mais trivial do que esta?

5. “O CDS defende o princípio da avaliação dos professores e entende que é necessário defender o seu prestígio social.”

QUESTÃO: Pode haver afirmações mais triviais ou demagógicas do que estas?

6. “Confundir deliberadamente tudo – por exemplo, a progressão dos professores na carreira e as notas que dão aos alunos; ou o mau desempenho de alguns, com a imagem de toda uma classe que é essencial ao futuro do país -, foi um erro político voluntário e forçado”.

QUESTÃO: “Erro político”? Ou erro técnico?

7. “A avaliação dos docentes […] terá de ser feita sem prejudicar o ano escolar, reclama uma base hierárquica, não se confunde com “avaliações” sem competências específicas e precisa de um sistema de arbitragem.”

QUESTÃO: Pode haver uma sequências de afirmações mais enigmáticas do que estas? (sublinhei uma delas…).
NOTA: Mais adiante lê-se: “A avaliação dos professores na escola pública deve ser inspirada no modelo em vigor no Ensino Particular e Cooperativo”. Mas então não explicam esse modelo no Programa? (Fui à procura na Internet e não encontrei. Alguém me ajuda?)

8. “Um dos muitos erros que foi cometido pelo Ministério da Educação foi o da divisão da carreira docente entre professores e professores titulares, sem que haja critérios compreensíveis para o efeito”.

QUESTÃO: Mas se houver “critérios compreensíveis para o efeito” já fará sentido a “divisão da carreira docente entre professores e professores titulares”. Certo? Mas então que critérios são esses?

9. “Deve ser considerado o desdobramento das aulas de Português e Matemática em teórico-práticas e práticas”.
QUESTÃO. Aqui está uma proposta concreta. Ou seja, para o CDS deve haver aulas mais expositivas e aulas com maior intervenção dos alunos. Mas isto não é o que se faz há muitos anos? É preciso pôr o Ministério a legislar sobre isto? Para quem quer o Ministério longe das escolas não está mal...!

10. “O ensino destas duas disciplinas [Português e Matemática] no ensino básico deve utilizar a memorização e a mecanização como elementos fundamentais na aprendizagem, tendo em conta a importância da compreensão da mecânica das relações e o contexto dos problemas”.

QUESTÃO: Podemos chamar a esta afirmação uma “afirmação mecânica”? Em que é que a “mecânica” do Português e da Matemática é diferente da “mecânica” da Física (as leis da Física…), da Geografia (quais os rios de Portugal?...), da História (Quais os reis de Portugal?...), etc.?

11. O CDS propõe-se “Criar aulas de língua portuguesa para estrangeiros”.

QUESTÃO: Mas se eles já existem o que se deve fazer? Considerar a sua existência mérito do CDS?


CONCLUSÃO: Quem vota CDS ou defende a privatização completa do ensino ou passa um cheque em branco a este partido.

sábado, 5 de setembro de 2009

INFORMAÇÃO SOBRE PROGRAMAS ELEITORAIS...

Só hoje coloquei o Programa Eleitoral do CDS-PP no lado direito do blog. Não convém ficar assustado com o número de páginas (222 páginas) dado que poderiam ser condensadas em menos de metade. A parte relativa à educação ocupa as páginas 60 a 69.
EXERCÍCIO XII - A PARTIR DE COMENTÁRIOS BREVES...

1. CARUMA disse...
E se Pilatos não tivesse votado em branco? Se tivesse decidido a favor de Cristo? Ou contra Cristo?No momento da decisão, dá-se ou tira-se a vida... o resto é alijamento da responsabilidade.
3 de Setembro de 2009 11:02

Resposta de M.B.:

Se Pilatos "não tivesse votado em branco" a única coisa certa é que a história seria outra...e uma das possibilidades seria "nunca Cristo ter salvo a Humanidade"! (ou melhor, a História da Salvação seria outra, porque Deus teria imaginação suficiente para adaptar o seu Projecto a essa decisão!). "No momento da decisão" de votar num partido não está em causa a vida de ninguém; quem vota em branco e quem se abstém (por convicção) sabem que estão a deixar para aqules que se consideram esclarecidos (os que não votam em branco nem se abstêm) a decisão sobre o partido que irá governar o País; isso significa simultaneamente reconhecer e aceitar a vontade dos outros e, eventualmente, da maioria (e isto é humildade democrática) e ficar em condições de exigir maior responsabilidade aos que votaram no partido do governo pelo tipo de governação que irá ser adoptado. Quem foi mais responsável pela morte de Cristo: Pilatos (que lavou as mãos) ou os fanáticos que "não votaram em branco" mas que não ficaram na História?


2. Dimi disse...
O voto não esgota a cidadania democrática, mas é sua condição essencial e se todos nos abstessemos de votar alienaríamos a democracia.Dimi


4 de Setembro de 2009 0:12

Resposta de M.B.:

Que o voto é "condição essencial" da "cidadania democrática" creio que estamos todos de acordo. E quem vota em branco manifesta ou não sentido de "cidadania democrática"? E quem se abstem por convicção (pelo facto de pensar que nenhum dos partidos responde ao que lhe parece essencial) não está a revelar consciência política? Portanto a questão está em saber o que se deve fazer para encontrar alternativa ao voto em branco e à abstenção. Por que razão o cidadão há-de votar no partido A ou B ou etc...? Que garantias tem de que o partido em que vota não irá defraudar as suas expectativas (como aconteceu com o voto de muitas pessoas no PS em 2005)? A abstenção de todos significaria a "alienação da democracia"?!! "A abstenção de todos" é, no mínimo, uma hipótese absurda! A partir de que valor da abstenção é que temos"alienação da democracia"?
A questão principal é a seguinte: que mecanismos têm sido criados (pelos governos, instituições,etc.) ou que são propostos, por exemplo nos programas eleitorais, para solicitar e motivar os cidadãos a intervir na política e a votar? Cito Mário Soares de um livrinho acabado de sair, Elogio da Política, Sextante Editora, Setembro de 2009, pág 45: [Há uma] "diferença entre a democracia liberal , individualista, no sentido de «cada homem, um voto» - e eleições livres com prazos marcados - que os americanos tanto gostam de proclamar, e a democracia social , que insere no conceito de governar preocupações económicas e sociais, tentando reduzir a desigualdade entre as pessoas...". Tanto quanto já li deste livro, Mário Soares não inclui explicitamente na "democracia social" procedimentos que poderiam estimular a intervenção regular dos cidadãos na vida política (e isso é uma falha, a meu ver). Mas é explícita a crítica do autor aos modelos "liberais" e puramente "representativos" em que a democracia significa votar de quatro em quatro anos...
Talvez volte, brevemente, a este livrinho...
Saúde.

M.B.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

EXERCÍCIO XI - A. NEVES ARGUMENTA CONTRA O VOTO EM BRANCO...M. BEIRÃO RESPONDE...
A. Neves disse...
Manuel Beirão, apreciei bastante a tua coragem de divulgar a tua opção de voto para as próximas legislativas, mas não gostei nada da opção e, por isso, faço uma tentativa de alterar o sentido do teu voto socorrendo-me de argumentos, regras empíricas e uma pequena história; suponho que não vais gostar e há outras pessoas que escrevem no teu blogue que também não vão gostar. TRÊS REGRAS: 1. Politicamente falando o que há de pior é não votar. (Significa não perceber nem apreciar o que é viver numa sociedade democrática.) 2. Ainda muito mau é votar nulo ou branco. (Significa apenas descontentamento e rigorosamente mais nada.) Eu prefiro votar na Laurindinha, que não suporto, do que em branco, porque dessa forma estou a dizer que estou descontente com os partidos e com as ideias que vigoram há anos e que sou partidário de uma mudança. 3. Como um horror a que não nos devemos condicionar é considerado o voto útil, por ti e por vários colaboradores do teu blogue. (Eu, pelo contrário, considero o voto útil como o refinamento da inteligência prática de gente que sabe a diferença entre o que significa ganhar e perder e percebe que não podemos ter a soberba de ganhar nos rigorosos termos que correspondem à nossa limitada e emotiva formação teórica.) Acresce que muita da gente purista está (enganosamente) de papo cheio, isto é, julgam que, APESAR DE TUDO, a vitória do PS vai acontecer e, por isso, podem divagar e fazer-se esquisitos. Nota: Apesar de tudo significa o bom senso do Zé Povinho que eles não têm... FIM REGRAS. UMA HISTÓRIA: recentemente o jornal EL País, idolatrando o U. Bolt pelo record mundial dos 100 metros chamava a atenção para o papel decisivo que o segundo classificado, Powell, desempenhou para que Bolt se transformasse numa lenda ao obrigá-lo, com a sua presença, a correr dando tudo o que tinha de melhor dentro de si até ao final da corrida. FIM DE HISTÓRIA. CONCLUSÃO: Como se resolve o dilema duma pessoa genuinamente socialista(PS) ? Por ordem de preferência: 1. Vota PS (voto genuíno, útil, que impede a Besta de ganhar) 2. Vota BE ou PCP (nunca ganharão e podem fazer o papel de Powell até ao fim) 3. Vota Laurinda ou noutro partido que seja novo e não seja neo-nazi. 4. Vota nulo escrevendo um desabafo. 5. Vota branco e, se fores coerente contigo mesmo, nunca mais na vida poderás votar diferente de branco porque a história se repete. FIM DE CONCLUSÃO. NOTA FINAL: Manuel, não me obrigues a votar por ti.

António Neves.
1 de Setembro de 2009 22:48

A RESPOSTA POSSÍVEL... PARA JÁ...

Meu caro Neves
Como já disse, estou a gostar cada vez mais do ano de 2009/10 e da abertura deste "caderno de escrita" onde podemos expressar publicamente as ideias que fundamentam as decisões; isso tem-me obrigado a ler, a pensar e a comunicar como eu nunca tinha feito até agora...
Tentando ir directo ao assunto mas por partes:
1. Sobre as regras:
Não concordo com a primeira regra que apresentas. Foi abundantemente defendida por Cavaco Silva no discurso do 25 de Abril deste ano na Assembleia da Republica e isso fez-me logo desconfiar da verdade da afirmação (sei que isto é uma falácia ad hominem mas, como todas as falácias, têm um fundo de justificação...). Dizes que votar "significa apreciar viver numa sociedade democrática". Viver (no dia a dia, ao longo de quatro anos, assistindo à governação de um partido qualquer, aos "casos" de polícia, de justiça, de educação, etc., etc.) traduz-se no voto? E como é que o cidadão protestou ao longo dos 4 anos? Ou pediu explicações a quem manda? Defendo que: a) Votar é um direito que se encontra no final da linha da cidadania; b) O mais importante é a intervenção do cidadão na vida política ao longo de cada ano: como membro ou simpatizante de um partido, como membro ou simpatizante de um sindicato, de uma associação, etc.
A inverosimilhança da tua segunda regra é consequência da primeira. Admites "votar no que não suportas só para não votar em branco e isso seria para mostrar o teu descontentamento". Mas não é esse o significado do voto em branco? É preciso votar num partido com votação inferior a, digamos, 1% para mostrar descontentamento? Não basta alterar o sentido do seu voto e, por exemplo, votar em branco? Ou mesmo não votar? Não percebo.
Sobre a terceira regra que diz respeito ao voto útil. Esta regra é uma outra versão da regra do "mal menor": mais vale votar num partido B quando se está contra o partido A do que votar em branco. Eu afirmei há dias e mantenho que a palavra "útil" é inteiramente dispensável. Se eu não concordo com o partido A não voto nele; se concordo com algum dos partidos B,C,D, etc. voto nele. Mas pode acontecer que eu não concorde, em aspectos importantes, com nenhum. E então, voto onde? Em branco. Ou pura e simplesmente não voto. A política (de que fazem parte as eleições) não é uma questão de "ganhar ou perder". A mim não me preocupa quem ganha as eleições; preocupa-me, antes ,a argumentação e a convicção de quem votou em cada partido, independentemente do resultado final. Partindo do princípio que todos votam em consciência, no fim, quem ganhou, ganhou. Vamos ver o que se é capaz de fazer com a vitória! E com a derrota! (E não dou os parabéns a quem ganha mas a quem se esforçou para mostrar que tinha as melhores propostas).
Tendo em conta que, sociologicamente e estatísticamente, o centro ganha sempre, só há, a meu ver, duas possibilidades para o resultado final: ou ganha o PS ou o PSD, mas em qualquer caso só se verificará maioria relativa. Portanto compete aos outros partidos (BE, CDU-PCP e ao CDS-PP que para mim são suficientes, por enquanto) mostrar que algumas das suas propostas são melhores do que as do PS e do PSD. E se um destes partidos formar maioria absoluta com um dos outros tem uma boa oportunidade de chegar ao poder. O que é que o BE e o PCP deviam fazer para isso? Apresentar propostas alternativas às do PS e confrontar o PS com elas. Em que domínios é que isso está a ser feito? Fico à espera de uma sugestão...
2. A analogia com a corrida em que participaram o Powell e o Bolt pode ser aplicada à política apenas no caso de se entender esta como "perder ou ganhar" e mesmo assim apenas no sentido em que há só um que ganha. Ora não me parece que seja o caso. Com efeito na corrida política tens a possibilidade de fazer coligações o que não acontece no atletismo.
3. Das possibilidades que apresentas só compreendo a primeira, a segunda e a quinta. Mas acrescento outra possibilidade: não votar. Contrariamente ao que algumas pessoas defendem, penso que a abstenção é uma forma de protestar e, nesse aspecto, também é significativa. Eu disse que, se não houver argumentos para escolher a segunda opção, votarei em branco. A melhor forma de evitar que isso aconteça é indicarem-me as diferenças e vantagens das propostas do BE e do PCP relativas à Educação.
Um abraço.
M.B.

sábado, 29 de agosto de 2009

EXERCÍCIO X - CONCLUSÕES (PROVISÓRIAS) SOBRE O ESTUDO DOS PROGRAMAS ELEITORAIS DOS PARTIDOS, SENTIDO DO MEU VOTO E APOSTAS...

O que fui lendo nos Programas dos Partidos e nos textos que me têm enviado permite-me aproximar das seguintes conclusões:
1 – No Programa do PS não se reconhecem os erros cometidos na Política Educativa dos últimos 4 anos, em particular:
- A falta de capacidade de comunicação e argumentação da Equipa Governativa (tanto no interior do Partido Socialista como com as Organizações representativas dos Professores) relativamente à definição e aplicação das grandes alterações que quiseram implementar, em particular, no que respeita à Avaliação dos Professores e ao modelo de Gestão das Escolas Básicas e Secundárias;
- A aplicação autoritária dos modelos elaborados por adjuntos e assessores da Ministra da Educação (alguns são os mesmos desde 1998!) que nem com as mega-manifestações de professores reconheceu que era necessário alterar a forma como estava a funcionar;
- A “simplexificação” ad-hoc dos modelos adoptados que representou o “salve-se quem puder” ou o “cada um que se desenrasque!” em cada escola, em cada professor, em cada região (basta ver o que se passou na Madeira e nos Açores), etc.
- A imposição das políticas apenas com base na maioria absoluta de que o PS circunstancialmente dispôs na Assembleia e mesmo assim à custa das ambiguidades do PSD e do CDS-PP (as votações dos diplomas sobre a avaliação dos professores foram um bom sinal da divisão tanto do PS como do PSD (e do CDS, claro).
Estes erros são, a meu ver, o principal factor da derrota (relativa ou absoluta) do PS-Sócrates nas eleições de 27 de Setembro de 2009.
2 – No Programa do Bloco de Esquerda constato que os Princípios para a Política Educativa da Gestão das Escolas, do Estatuto da Carreira Docente e da Avaliação dos professores, correspondem ao que foi feito pelo PS-Guterres.
Ora o PS-Guterres errou pela falta de responsabilização dos vários agentes educativos (lembro-me ainda do debate gerado pela proposta de Ana Benavente sobre a disciplina nas escolas) e é necessário alterar os modelos então apresentados. Além disso, se o BE concorda com o que foi feito pelo PS-Guterres, deveria desafiar o PS-Sócrates, ou melhor, o PS, a adoptar Princípios que pudessem ser defendidos pelos Partidos ou pelos Cidadãos de Centro-Esquerda onde se situam grande parte dos militantes e eleitores do PS, alguns militantes e muitos eleitores do BE e até muitos eleitores da CDU.
3 – O Programa da CDU limita-se a enunciar os princípios gerais que tem defendido mas nunca pormenorizado. No fundo a CDU defende o que está em vigor porque o sentido da evolução das sociedades é contrário à estatização e favorável à liberalização. Por isso o Programa da CDU tem sido sempre conservador. Neste caso defende, como o Bloco, as Políticas defendidas pelo PS-Guterres (embora não se refira explicitamente a Guterres como faz o BE). Além disso identifica o PS com o PSD e o CDS-PP, isto é, todos estes partidos são “a direita”. E a “verdadeira esquerda” é, para a CDU, só a CDU. Toma portanto uma atitude conservadora e isolada. Assim não vai a lado nenhum! Se tiver mais votos do que nas eleições de 2005 é devido ao anti-voto no PS! Seria bom que a CDU desafiasse o PS (pelo menos a “parte esquerda” do PS) e a parte “direita” ou “esquerda” do Bloco a defender políticas concretas em domínios decisivos para a vida de um país como são a Educação, a Justiça, a Solidariedade e a Saúde. Mas para isso tem que responder, passe a imodéstia, às questões que foram sendo apresentadas em alguns “exercícios” aqui apresentados.
4 - Os Programas do PSD e do CDS não apresentam nada de substancial e decisivo. Limitam-se a enunciar princípios básicos (democracia, rigor, transparência, etc.) mas não se encontra lá nenhuma ideia que distinga as suas propostas de qualquer proposta do PS nem de qualquer política do PS-Sócrates ao longo destes anos. Votar no PSD ou no CDS é um cheque em branco completo e total. Além disso já lá estiveram muitos anos e viu-se o que fizeram!
O SENTIDO DO MEU VOTO E AS MINHAS APOSTAS NOS RESULTADOS ELEITORAIS DE 27 DE SETEMBRO DE 2009:
Pelo que disse atrás e ao longo dos “exercícios” publicados neste blogue, o sentido de voto mais provável de um militante ou de um anterior eleitor do PS (que tenham tomado uma posição crítica em relação à forma como o PS-Sócrates governou) será, mas eleições de 27 de Setembro de 2009, o voto em branco. Alguns destes eleitores (como é o meu caso) só votarão no BE ou na CDU se algum destes partidos for mais preciso nas suas propostas relativas à Educação e desafiar o PS a aceitar essas propostas.
Alguém me dá sugestões para alterar o sentido provável do meu voto?
E NESTE MOMENTO A MINHA APOSTA PARA OS RESULTADOS ELEITORAIS É:
PS – 32,5 % votos;
PSD – 31,7 %;
BE – 9,4 %;
CDU – 8,9 %;
CDS-PP – 7,3 %.


Quem dá mais?


NOTA: a fórmula do cálculo para o vencedor das apostas é, segundo a tradição, o valor mais baixo da soma dos quadrados das diferenças entre os valores das apostas (arredondados às décimas) em cada um dos cinco partidos e os correpondentes resultados finais na noite de 27 de Setembro de 2009. Não é assim, Neves? Todos os que queiram apostar deverão indicar valores para os cinco partidos. Só é tomada em conta a aposta entregue no próprio dia neste blogue até às 18h ou por mão própria no local a designar...

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

EXERCÍCIO IX - ANÁLISE DE ALGUNS PRINCÍPIOS DO BLOCO DE ESQUERDA SOBRE A EDUCAÇÃO (GESTÃO E AVALIAÇÃO):

Destaco os seguintes princípios do BE extraídos do seu programa (para consultar o Programa-BE basta clicar ao lado...):

GESTÃO DAS ESCOLAS:

-Sem colegialidade, sem democracia e sem representatividade de todos os membros das comunidades educativas, não há modelo de governo que interiorize verdadeiramente a sua missão pública.

-É entendimento do BE de que as comunidades escolares podem e devem definir o melhor modelo de gestão dentro de um figurino aberto (modelo do PS-Guterres).
- A delegação de competências nos municípios iniciou-se há uma década com as refeições escolares, consolidou-se com a tutela sobre os edifícios e os auxiliares de acção educativa e posteriormente com as actividades de complemento curricular. Deu um passo mais ousado ao ganhar capacidade de controlo sobre a escolha dos directores de escola e encaminha-se no sentido de determinar as contratações de pessoal docente e não docente nas escolas e nos agrupamentos. Assistimos a um processo de extensão ao campo escolar das relações de hegemonia política nos municípios.

- Defendemos a co-decisão das instituições no seu modelo de organização e gestão, pela diversidade de modelos e contra a formatação dos governos, e assente nos princípios:
• Do alargamento da representação e participação das comunidades e actores escolares (a sub-representação de alunos e profissionais não docentes é inaceitável);
• Da electividade, na colegialidade, na participação, no dever de publicitação de todos os actos e decisões, na limitação dos mandatos.

QUESTÕES CONCRETAS:

Relativamente aos princípios sobre Educação defendidos pelo Bloco pergunto:
-Como conciliar “colegialidade” com “responsabilização individual”? A responsabilização da Direcção de uma escola não passa pela responsabilização do seu Presidente (ou Director)?
-O Bloco reconhece explicitamente que o modelo do PS-Guterres é melhor do que o do PS-Sócrates e portanto defende que a Direcção de cada escola deveria ser eleita por uma Assembleia com pelo menos cerca de 20% da população escolar. Mas então é preciso responder às questões: Que tipo de Assembleia? Com todos os professores e funcionários? Só alguns representantes dos alunos ou TODOS os alunos? E com quantos pais/encarregados de educação?
-Para o Bloco, nos Órgãos da Escola não devem participar as Autarquias? Se sim a que níveis?

AVALIAÇÃO DOS PROFESSORES:

- Um modelo de avaliação das escolas, que concilie as vertentes, externa e interna, e que valorize o trabalho de professores naquilo que ele é: um trabalho de equipa; que assuma os contextos e as necessidades de meios, que articule a avaliação individual dos docentes com a das escolas;

- A divisão arbitrária e incompetente entre professores titulares e não titulares foi um dos mais duros golpes na escola pública, e a avaliação é a sua sequela.

QUESTÕES CONCRETAS:
- Na avaliação de cada professor devem intervir, pelo menos, a Direcção da escola e os professores Coordenadores do Departamento/Área Disciplinar. Está o Bloco de acordo com isto? Qual o peso que deve ter cada uma destas instâncias?
-Na avaliação de cada professor deve intervir uma Inspecção Pedagógica exterior à Escola. É a isso que se refere a palavra “externa” que aparece no Vosso Programa? Se não, a que é que se refere?
- A divisão arbitrária e incompetente entre professores titulares e não titulares a que se referem significa o quê? Que não deve existir distinção de funções entre os professores mais novos e os mais velhos? Qualquer professor deve desempenhar cargos do tipo: coordenador de Departamento, desempenho de cargos de Gestão e Orientação Pedagógica, etc.?
- Não reparei se se referem no Programa às cotas para professores titulares e em geral. São contra a existência de cotas para os diferentes níveis de classificação? Porquê? Na Função Pública existem cotas. São contra essas cotas?
QUESTÃO FINAL: O que é, para o Bloco de Esquerda, uma Escola Pública (de Qualidade, naturalmente)? É a que está implícita nas Orientações políticas de António Guterres e da sua equipa (com o Engenheiro Marçal Grilo à cabeça) entre 1996 e 2005? Se não, o que é que se devia alterar?

Se não respondem a estas questões continuam a estar longe das questões concretas e decisivas. E os eleitores conscientes não gostam de votar em quem está longe…
Os potenciais eleitores no BE ficam à espera…

NOTA: A partir das 21h de hoje entrou em OUTRAS DIRECÇÕES o Programa Eleitoral do PSD. Basta clicar ao lado...

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

EXERCÍCIO VIII - DILEMAS, PROGRAMAS E QUESTÕES POLÍTICAS… (com referência aos textos de A. Neves, Dimi, AB e Marta e a pensar em três aniversariantes do dia 24 de Agosto…)

“O dilema de quem é genuinamente de esquerda” apresentado há dias por A. Neves (e defendido pelas comentadoras que A. Neves acrescentou ontem) é sugestivo. Segundo A.N., o eleitor (“genuíno”?!) de esquerda está entre dois grandes males: a vitória do PS-Sócrates ou a vitória da direita. E o seu voto é decisivo (por isso é que é um dilema): esse eleitor terá que votar no PS-Sócrates se quiser ser responsável…
Como todos os dilemas, este é um exercício mental que nos permite analisar uma questão importante, neste caso, a governação de um País. Esta governação depende (em parte) do número de votos dos partidos; mas também depende (na sua maior parte) daquilo que o Primeiro – Ministro (do partido mais votado) irá fazer com a maioria dos votos que obtiver. Sócrates obteve em 2005 a maioria absoluta de votos porque convenceu a maioria absoluta dos eleitores. E o que fez com esses votos? O que lhe pareceu melhor. O que fez estava no seu Programa Eleitoral? No que respeita à Educação, já muita gente mostrou que as grandes alterações que fez não estavam, nem explícita nem implicitamente, no seu Programa. Portanto a resolução do dilema é simples: cada eleitor (e por maioria de razão o da esquerda “genuína”) deve votar no Partido que o convencer relativamente à governação proposta; mas se a sua intervenção se limita ao voto rapidamente cai no dilema de A. Neves. A questão que se põe é saber como é que o eleitor pode intervir após a votação (para que não se passem cheques em branco aos partidos). E aqui só vejo uma resposta: os eleitores são responsáveis pelo governo do seu país não só pelo sentido do seu voto mas também por aquilo que fazem depois. Se um eleitor vota no partido A (seja ou não este partido o vencedor), então terá que tomar posição sobre o que o seu partido faz depois. A política não se pode esgotar (e já chegam trinta e tal anos de eleições para concluir isso) no momento da votação. Limitar-se a isso é a fonte de todos os “dilemas”! Que dilema não seria para o militante do partido A pensar que o seu partido não correspondeu ao que dele esperava mas não pode deixar de votar nele! Aqui como noutras situações o eleitor (militante ou não) só tem que analisar a teoria e a prática do seu partido e concluir sobre o que deve fazer. Para superar dilemas e concentrar a nossa atenção das políticas convido-os a analisar questões concretas.
1) Sobre a Educação: A forma de melhorar a educação em Portugal é com um modelo de gestão baseado na figura do Director? E a avaliação de professores deve estar baseada nos avaliadores internos (os próprios professores) ou externos (uma Inspecção Pedagógica geral)? O PS-Sócrates defende o Director a qualquer preço mas não está convencido da necessidade da Inspecção. E os outros partidos? A CDU (PCP) e o BE contestam a figura do Director, em nome do princípio da colegialidade (Ver Exercício II e os programas integrais). E quanto à avaliação defendem a intervenção de uma Inspecção pedagógica? Não encontrei isso. O que contrapõem estes partidos de esquerda? Basicamente o modelo de gestão anterior (que como sabem também era do PS, mas de Guterres…). Ou não é o modelo anterior que está implícito no que a CDU diz a determinada altura do seu Programa: “ O modelo de avaliação de desempenho que o PCP defende, subordinado ao objectivo central de garantir a qualidade da Escola Pública, baseia-se numa concepção formativa da avaliação que tenha como objectivo a melhoria do desempenho dos docentes e não a sua penalização em termos de progressão da carreira ou em qualquer outra dimensão da sua condição laboral”?
Quanto ao BE não vejo ideias claras e, portanto, convincentes, quando leio: “Responder ao défice democrático, neutralizar as derivas gerencialistas, privatizadoras e selectivistas, combater a discriminação e o pacto silencioso com as desigualdades sociais e culturais de partida – eis as nossas prioridades”.
Ou estou a interpretar mal os Programas Eleitorais de algum destes três partidos? Se sim, agradeço que me digam a página ou páginas que me estão a escapar…
NOTA: Já agora deixem-me esboçar dois ou três princípios fundamentais para uma “Boa Educação”. A) Sobre a Gestão: - A responsabilização dos Órgãos Directivos de uma escola deve ser explícita mas para isso não é necessária a figura do Director (basta a figura do Presidente da Direcção); - O Órgão Escolar onde estão representados os diferentes corpos escolares (actualmente chamado “Conselho Geral”) escolhe o Presidente da Direcção; - Aquele Órgão deveria dar um parecer sobre os restantes membros da Direcção designados pelo Presidente; - Aquele Órgão deveria ver definidas as condições de realização das suas competências antes da entrada em funções do novo modelo; - O Ministério deve promover a discussão aberta do modelo de Gestão em reuniões periódicas com os diferentes intervenientes no Sistema Educativo.
B) Sobre a Avaliação de professores: - Na avaliação devem intervir o Presidente da Direcção, os Coordenadores do Departamento (ou dos Grupos Disciplinares) e a Inspecção Pedagógica; - Todos estes intervenientes devem realizar formação antes da entrada em vigor de um novo modelo de avaliação; - A avaliação é considerada para efeitos de progressão na carreira; - O Ministério discute com os Órgãos Escolares e os Professores o processo de avaliação que pretende implementar.
Ainda não encontrei nos três partidos com Programas Eleitorais relativamente desenvolvidos, um que defenda estes princípios. Apesar do PS se aproximar deles, a prática dos últimos 4 anos mostrou que se limitou a impor um modelo cujos autores eram, basicamente, os mesmos que elaboraram o antigo o qual, por sua vez continua (ironia da história?!!!) a ser defendido pela CDU e pelo BE… . Por isso sou crítico da Política Educativa do PS-Sócrates e não posso votar no PS actual. Mas também não encontrei, por enquanto, na CDU nem no BE ideias claras e decisivas para alterar o estado das coisas na Educação.
Agradeço, naturalmente, comentários ou críticas a este esboço…
2) Sobre a Economia (Ver textos da Dimi e de AB): Como deve ser aplicada e regulada a “economia de mercado”? Se se admitem contratações directas do Estado a empresas, em que condições é que isso deve ser feito? Que propostas fazem os Partidos sobre isto? Que dizem os partidos sobre a “nacionalização” (se é que o foi…) do BPN?
3) Sobre as taxas que o cidadão paga: Que significa “esmifrar o cidadão” (expressão utilizada por AB no comentário ao texto da Dimi)? AB diz que este Governo “agravou as taxas na justiça, na saúde, na educação, etc., etc”. Mas na educação, por exemplo, os estudantes pagam agora nos transportes 50% do que pagavam até há pouco tempo. Isto foi uma boa medida ou não? De quanto foi o agravamento das taxas na Justiça e na Saúde? Que propostas concretas fazem os vários partidos? Segundo que partido ou partidos não se deve pagar propinas no ensino superior? Ou melhor: quanto deveria ser o valor máximo das propinas? (Há alguns anos havia os defensores do “Não pagamos!”; e agora?)
4) Sobre as “cunhas” (Ver texto da Dimi): Se um pai não tem dinheiro para pôr o filho numa escola particular por que razão não há-se utilizar os seus conhecimentos e influências para o colocar na escola preferida? Se houver uma lei clara e rigorosa as “cunhas” têm a mesma probabilidade de funcionar? E por que razão não existe esta lei? E, se existir, por que razão se deve aplicar apenas aos mais pobres? O que defendem os vários partidos sobre as “cunhas” e a “corrupção”?
5) Voto útil? Vou mais longe do que a Marta (Ver texto abaixo). Não existe voto útil consciente (de direita nem de esquerda). Quem diz que vota no partido A porque não quer que o partido B ganhe está a dizer que vota em A porque lhe parece melhor que o B. Ponto final. Quem vota no partido X está a dizer que o que X propõe ou tem feito é melhor do que aquilo que defende a coligação Y e é melhor do que faria o partido Z ou a coligação S-T caso fossem para o governo. A isto chama-se liberdade de pensar e de votar; com a “razão”, a “emoção” ou com tudo ao mesmo tempo! Mas já sabemos que não nos podemos limitar a votar; e essa é a única forma de não cairmos em dilemas, ou melhor, de superar todos os dilemas!
6) A cidadania traduz-se só ou principalmente na liberdade de votar? Não. A cidadania actual envolve a intervenção directa na vida dos partidos, nos debates, nas reuniões e também no direito ao voto (e até no direito de não votar ou votar em branco!). E o voto é secreto! Ninguém pode obrigar um militante de um partido a votar no seu próprio partido! Como dizia alguém nas eleições europeias: “Eu pago as cotas ao partido J, vou às reuniões do partido J e ainda tenho de votar neles”? Se isto não é “reclamar com frontalidade” (como diz AB) o que significa esta expressão?

…. E NOTA FINAL SOBRE DOIS, OU MELHOR, TRÊS ANIVERSÁRIOS:
Uma das aniversariantes, a Júlia, faz hoje 18 anos! E, portanto, nestas eleições já pode votar! Provavelmente ainda não está inteiramente esclarecida sobre o sentido do seu voto e por isso tudo o que lhe pudermos dizer a partir de hoje irá certamente influenciar a sua intervenção política próxima. A outra aniversariante, a Maria, faz 16 anos! Pelo que lhe ouvi dizer é sua intenção participar a partir deste ano em certas iniciativas políticas na escola… Não me parece mal a ideia; afinal nem só de escola nem de música é feita a nossa vida! O terceiro aniversariante é o Daniel. Faz hoje 26 anos! Apesar de estar hoje fisicamente longe, está próximo de nós, em particular neste dia, desde 1983 (o primeiro ano em que viajei de avião e foi nessa altura que o Daniel nasceu!). Na história decisiva do Daniel, da Júlia e da Maria participaram activamente a Maria José e o Eduardo, a Joana e eu. Está na hora de brindar aos aniversariantes! Haja Saúde!

24 de Agosto de 2009